Lula sempre soube fazer uma coisa melhor do que ninguém: dividir o país em dois times e se colocar do lado que grita mais alto. Não é acidente, é método. Foi assim a vida inteira.
Começou lá atrás com patrões contra empregados, o discurso sindical que o lançou. Depois, já presidente, o jogo virou pobre contra rico, com o Estado como árbitro generoso de um lado só. Agora, em 2026, a fórmula ganhou uma nova versão: crentes contra católicos. E dessa vez a régua caiu.
O episódio é conhecido: uma campanha de fake news tentando convencer o eleitor de que evangélicos querem “trocar” a padroeira do Brasil, numa tentativa mal disfarçada de grudar essa acusação em Flávio Bolsonaro. É a mesma arma de sempre, o antagonismo fabricado, só que usada dessa vez em cima da fé das pessoas, o que deveria ser linha vermelha para qualquer um.
O problema de Lula é que ele está lutando a guerra de ontem. Essa receita (mentira grande, repetida com convicção, espalhada antes que alguém confira) funcionava muito bem numa época sem internet, quando a informação levava dias para circular e semanas para ser desmentida. Hoje não. Hoje todo mundo com um celular na mão é fiscal. A mentira ainda se propaga rápido, isso é verdade, mas a mesma rede que a espalha é a que a desmonta em horas. O que sobra, no fim, não é a acusação: é o desgaste de quem inventou ela.
E tem uma ironia que não pode passar batida: Lula não é católico, não é evangélico, não professa fé organizada nenhuma que se saiba. Já criticou o Papa, já criticou dogmas da Igreja, já debochou publicamente de posições da hierarquia católica. Agora aparece como paladino da padroeira, defensor de ofício de uma fé que nunca foi dele, só porque serve ao roteiro da vez. Não é fé, é cálculo eleitoral vestido de devoção.
Lula é inteligente, isso ninguém tira dele. Mas é também alguém que envelheceu dentro de uma cartilha que não lê mais o país como ele é hoje. As receitas antigas (dividir, apontar um inimigo, gritar “nós contra eles”) perderam o apelo que tinham. O eleitor mudou, a informação mudou, e o truque começa a soar cansado até para quem gostava dele.
Resta torcer para que o encanto não pegue de novo, e que ninguém caia no conto do vigarista travestido de fé. Fake news é fake news, seja a versão 1.0, 2.0 ou, como estamos vendo agora, o Lula 3.0.
Júlio Cesar Gomes é escritor, empresário, pastor e especialista em liderança e gestão. Na coluna Entre Linhas, analisa os fatos com experiência, senso crítico e compromisso com a verdade.



